domingo, 16 de julho de 2017

Resenha: Men in Black RPG





Em 1997 era lançado nas telonas, o blockbuster Homens de Preto e para aproveitar o hype, a West End Games (já famosa pelo seu RPG oficial de Star Wars), publica o MIB RPG. O jogo utilizava a base consolidada do seu já renomado D6 System, que já havia recebido um bem-vindo tratamento genérico. O Masterbook, já permitia usar o conjunto de regras para qualquer ambientação.

Classificar MIB RPG como um RPG de comédia é muito simples. Mas sempre friso que o jogo é mais que isso. Como nos filmes, há espaço para a comédia “pastelão”, para o drama, para o gore, para o pulp, para a investigação soturna de um mistério (a lá Call of Cthulhu), ficção científica e principalmente para o elemento que mais valorizo: os absurdos do cotidiano humano. Uma boa aventura de MIB deve ter os elementos citados em doses equilibradas. Mas fique tranquilo, o livro possui ferramentas e espaço para refletir sobre.

Como dito, o jogo usa o sistema D6, com algumas pequenas regras orbitando ao redor. Como regra opcional, temos as CUE CARDS, cartões que representam as famosas “deixas” e frases de efeito do cinema. Ao planejar a campanha, o Mestre cria um deck com algumas dessas cartas (o livro vem com uma folha de cartas em branco para xerocar). No início da sessão, cada jogador saca 3 delas e tenta ativar durante o jogo. Em troca, será recompensado como descrito na carta. Por exemplo, a seguinte carta: FALA “-Toque em mim com isso novamente e terei que me casar com você”, a recompensa é de 2 pontos de personagem. O Mestre e seus jogadores podem e devem customizar suas próprias CUE CARDS. Ótima ferramenta.   

O livro tem uma tabela de criação de Aliens muito boa também. É possível gerar poderes dos mais diversos, nomes escalafobéticos e outras bizarrices para seus agentes investigarem. Ponto alto para o Teste de Recrutamento, preenchido na criação de personagem, mas sem efeito mecânico, apenas um questionário livre repleto de piadas que “quebram o gelo” e ajudam muito a estabelecer o tom logo de cara. Uma das questões que lembro de cabeça era:

1-    Formule sua visão sobre o Big Bang.
2-    Agora, refute-a.

Genial!

O livro que contém a escória do universo!
MIB RPG provavelmente está no meu Top 3 de RPGs mais undergrounds. Por fim, apesar de um ser jogo incrível, acho que não foi um tremendo sucesso pelo mesmo fator que muitos jogos semelhantes enfrentam por aí: o forte apelo cômico. Ao meu ver, muitos Mestres e jogadores se sentem intimidados com RPGs de humor. Inseguros, acham que suas piadas não irão funcionar para todos ou mesmo que não irão funcional at all. Essa discussão por si só, já valeria um post, mas meu conselho é que basta relaxar. O humor (pelo menos o tipo ao qual mais aprecio e é bastante visado em MIB RPG), surge natural e gradualmente, movido e estabelecido pelo absurdo das situações, das conspirações e das lendas urbanas. Por fim, como todo bom RPG, será gerado organicamente pela história criada cooperativamente e das reações dos jogadores às cenas propostas. Não se intimide com isso e dê uma chance.

Abraço a todos e bons jogos.

sábado, 1 de julho de 2017

Nostalgia: Ad&d 1st edition




Entre 1977 e 1979 a extinta TSR lançou o Advanced Dungeons & Dragons, uma tentativa de compilar todas as regras de D&D espalhadas em fanzines, revistas, regras usadas internamente, tudo para que os campeonatos organizados pela empresa, ficassem mais uniformes. Se tal objetivo foi cumprido ou não, não posso dizer, mas é fato que a trilogia foi um sucesso, deixando o jogo mais coeso para os veteranos e apresentando um material bem completo para quem iniciava no hobby. Só para deixar claro, o Ad&d que veio para o Brasil, pela editora Abril é o Ad&d 2ª edição revisado.

Prova de seu sucesso foi a alteração das capas (o texto continuou o mesmo), com o claro intuito de deixar o material mais “amigável” e menos associado às falácias de ligação ao satanismo. Mudaram para capas mais fantásticas e heroicas, deixando de lado o famoso ídolo e o Efreet encapetado. Na minha opinião, essas capas alternativas (as que possuo e ilustram esse post) são bem mais bonitas e mais impactantes com os trabalhos primorosos de Jeff Easley.

Se todos são mal encarados, quem é o herói afinal? Bons tempos...
Existem dois pontos a serem destacados quando falamos do Ad&d 1st edition: primeiro as mudanças de regras. O segundo ponto é a escrita tão autoral de Gary Gygax. Sua biografia diz que Gygax devorava dicionários para poder utilizar um vasto leque de sinônimos e palavras em desuso, para justamente usar em suas campanhas e deixar o texto com um bem-vindo teor "datado". 

 E quantos às diferenças entre o D&D e esse tal Advanced?



- Divisão clara, entre os livros, para material para o jogador e material para o Dungeon Master. Por exemplo, jogadores não precisavam ler sobre “lidando com personagens perdidos”, “ferramentas para uma aventura mais coesa”, “como elaborar uma masmorra desafiadora”, etc. Aos olhos dos jogadores ficavam as relações de magia, regra para criação de personagens e equipamento. Tal recurso fez sucesso e fora oficialmente adotado para as edições futuras, como sabemos.

- Cisão da Classe de Personagem: agora temos a distinção entre dois conceitos: classe e raça. Possibilitando muitas combinações. EDIT: Na verdade, o Diogo Nogueira me explicou que o OD&D primeiramente assumia isso, mas para simplificar, o Basic havia fundido classe e raça. Entretanto, as combinações permitidas no OD&D era limitadíssimas.  

- Inclusão de Classes como o Assassino, o Monge e de raças como o Meio-Orc. Três exemplos de material que havia sido publicado nas páginas da Strategic Review e que agora estavam oficializados nos livros básicos.

- Charges humorísticas: por ser direcionado aos veteranos da época, estão espalhados pelos livros, inúmeras tiras que fazem referências à situações conhecidas por muitos jogadores experientes.  Se um novato lesse, provavelmente não entenderia a piada. Para saber mais, escrevi um post especificamente sobre isso NESSE LINK.

- Revisão das Tabelas de Atributos: As tabelas já existiam, mas elas foram repensadas e reescritas.

A pergunta que não quer calar: vale a pena jogar Ad&d 1st edition? Olha, se você for um colecionador, um saudosista e de quebra, um grognard, vale sim. Nesses tempos de Old School, os livros são muito bonitos e até foram reimpressos tempos atrás em edição limitada. Ao folhear um livro de arte e grafia tão distintas, é impossível não ficar inspirado! Além disso, quem jogou o Ad&d 2a edição não terá dificuldades para perceber quando o sinal de soma significar subtração e o sinal de subtração, significar adição....hahaha.

Alguns monstros parecem ter saído de Space Ghost ou de Os Herculóides!

Por fim, o fato que talvez cause mais confusão na cabeça da galera é que o AD&D 1st edition, por muito tempo, foi concorrente do próprio D&D. Os lançamentos eram simultâneos e editorialmente falando isso é um erro básico de gestão. Chamado no business de “canibalismo de marcas”. É inegável que a sucessão desses mesmos erros, foi um dos fatores para a falência da TSR. Lição aprendida pela Wizards quando investiu na consolidação da marca em 2000. Mas isso é assunto para outro dia. 

Abraço a todos e bons jogos!  

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Nostalgia: Titan o mundo de aventuras fantásticas




 
Nascido nas páginas dos famigerados livros-jogos, Titan, como cenário de fantasia estreou em 1982, com a publicação do Feiticeiro da Montanha de Fogo. Criado pelos britânicos Steve Jackson (não confundir com o xará americano criador do GURPS) e Ian Livingstone para suas campanhas caseiras e publicações.

 No Brasil, deu as caras nos anos 90, trazido pela Editora Marques Saraiva e foi seu sombra de dúvida, a porta de entrada de muitos para o nosso hobby. Lembro que foi o Miguel Peters (parceiro do blog) quem me emprestou O Feiticeiro da Montanha de Fogo por alguns dias. Morri várias vezes e não consegui terminar, mas foi uma experiência muito boa, pois sabia que ali havia algo de especial. Mesmo que fosse uma experiência inferior a jogar RPG propriamente dito, a ambientação era muito rica. Os desafios bem escritos e os monstros e personagens encontrados, carismáticos. Depois desse episódio, perdi contato com TITAN por algum tempo.

A arte dos livros é incrível! Ainda mais com o advento da OSR!

Fichas simples me fazem feliz.
 Fui me deparar novamente com o cenário de campanha de maneira amadora: através da aventura “As Sete Safiras da Hidra” para Ad&d que fez sucesso nos downloads da “internet-mato” dos anos 90. Ali citavam personalidades e locações citadas nos livros jogos. E dali descobri que havia de fato um cenário de campanha publicado em português. Comprei finalmente em uma livraria do Centro do Rio de Janeiro o livro “TITAN – o mundo de aventuras fantásticas” e fiquei fascinado rapidamente pelo material, pelos seguintes pontos:

- Um cenário mais “sujo”: naquela época os únicos cenário de campanha que possuía era o colorido e heróico Forgotten Realms e o nobre e valoroso Mystara (não me entenda mal, gosto de ambos), mas Allansia era um lugar de traições, deuses caídos, corrupção, peste, Porto Blacksand com seus becos imundos fedidos a peixe podre, deuses traiçoeiros e não apenas maniqueístas como em outros cenários.

- Livro 100% descritivo. Isso mesmo: não havia nenhuma regra. Eu poderia usar com meu querido Ad&d, com o sistema Daemon, ou com o GURPS (os únicos jogos que tinha naquela época). Ricamente detalhado, o livro te inspirava com mapas, belas ilustrações (que hoje em dia possuem aquele tão desejado apelo old school), descrições do panteão, um calendário completo, relato das guerras mais famosas do cenário e até da gênese do mundo. É impossível ler uma página sem ter ideia para um aventura.

- NPCs instigantes: é difícil esquecer nomes como Lorde Azzur, o tirano de Blacksand, Barão Sukumvit, O Arquimago, Shareella,a feiticeira da neve, Balthus Dire, entre outros. Você acreditava que o NPC é poderoso não pelas estatísticas e atributos altos (até porque não havia nenhuma), mas sim pelo seu histórico, seus feitos e sua personalidade. Verdadeiramente, uma lição para os RPGs de hoje em dia.

A saber, o material publicado pela Marques Saraiva foi vasto, mas como aconteceu com o Ad&d da Abril Jovem, o produto encalhou. Muitos lotes lacrados foram vendidos para sebo mas hoje em dia, com o status de cult, vejo os livros sendo vendidos a preços altos. Na minha opinião, existem 3 grandes pérolas no meio desse acervo: Out of Pit (belíssimo bestiário do cenário, ao qual vale um post só pra ele), Dungeoneer (RPG completo e simples para usar juntamente com o cenário apresentado) e o romance “As Guerras de Trolltooth” (uma narrativa dark fantasy que parece ter saído do Apêndice N!).

TITAN como cenário básico de DCC? Sim ou claro?


No mais, em tempos de OSR, vale a pena adotar TITAN como seu mundo padrão: Seja jogando Ad&d, GURPS, DCC, Dungeon World. 

Abraço a todos e bons jogos!